Agosto Lilás: o papel das empresas na conscientização e no enfrentamento à violência contra a mulher

Agosto Lilás: o papel das empresas na conscientização e no enfrentamento à violência contra a mulher


O Agosto Lilás representa um importante período de conscientização sobre o enfrentamento à violência contra a mulher no Brasil. A mobilização está diretamente relacionada à Lei Maria da Penha, sancionada em 7 de agosto de 2006, e busca ampliar o conhecimento sobre as diferentes formas de violência, os direitos das mulheres e a importância da construção de redes capazes de oferecer informação, acolhimento e proteção.


Vinte anos após a criação da Lei Maria da Penha, o tema permanece urgente. Dados recentes mostram que os avanços conquistados na proteção às mulheres convivem com um cenário ainda preocupante de violência doméstica e de gênero. Para as empresas, essa realidade também exige atenção: embora a violência possa acontecer fora do ambiente profissional, suas consequências não ficam restritas à vida privada e podem alcançar a saúde física e emocional, as relações sociais e a própria trajetória profissional das vítimas.


Os dados mostram por que ainda precisamos falar sobre violência contra a mulher


A 20ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgada em julho de 2026, apresenta um contraste importante. O Brasil registrou em 2025 a menor taxa de mortes violentas intencionais desde o início da série histórica do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2012. Ao mesmo tempo, indicadores relacionados à violência de gênero e doméstica, incluindo feminicídios, agressões, ameaças, tentativas de feminicídio e violência psicológica, avançaram.


O Atlas da Violência 2026 também ajuda a dimensionar a complexidade do problema. O levantamento registrou 3.642 homicídios de mulheres em 2024 e aponta que, na década entre 2014 e 2024, a redução da taxa de homicídios entre mulheres foi menor do que a observada na população brasileira de maneira geral. Os dados também chamam atenção para fatores como desigualdade racial e para a permanência da residência como um dos principais espaços de violência contra as mulheres.


São números que reforçam uma questão fundamental: combater a violência exige mais do que reagir aos casos mais extremos. É necessário ampliar informação, capacidade de identificação dos sinais de violência, prevenção e acesso às redes de proteção.


Violência não é apenas física


Uma das contribuições mais importantes da conscientização promovida pelo Agosto Lilás está justamente em ampliar a compreensão sobre o que caracteriza uma situação de violência. A Lei Maria da Penha reconhece cinco formas de violência doméstica e familiar contra a mulher: física, psicológica, sexual, patrimonial e moral.


Nem todas deixam marcas visíveis. Controle excessivo, isolamento, ameaças, humilhações, retenção de recursos financeiros e outras formas de abuso podem fazer parte de ciclos de violência que se desenvolvem gradualmente. Informação qualificada ajuda a reconhecer comportamentos abusivos e pode facilitar a busca por apoio antes que a situação se agrave.


Essa conscientização é especialmente relevante porque muitas mulheres enfrentam barreiras emocionais, sociais ou financeiras para romper situações de violência. Por isso, o enfrentamento depende também da existência de ambientes nos quais elas possam encontrar orientação e acolhimento sem julgamento.


Quando a violência chega ao ambiente de trabalho


Separar completamente vida pessoal e profissional nem sempre é possível. Uma mulher submetida a uma situação de violência pode enfrentar consequências físicas e emocionais que afetam concentração, segurança, relações interpessoais, frequência e desempenho no trabalho.


Nesse contexto, o ambiente profissional pode assumir uma importância que vai além da atividade laboral. Para algumas mulheres, a empresa pode representar um dos espaços de convivência fora do círculo no qual a violência ocorre e, consequentemente, um ambiente onde mudanças comportamentais podem ser percebidas e onde informações sobre redes de apoio podem ser encontradas.


Isso não significa transformar gestores ou profissionais de RH em responsáveis por investigar ou solucionar situações de violência doméstica. Significa reconhecer que organizações podem contribuir para a construção de uma rede mais ampla de conscientização e acolhimento, respeitando sempre a privacidade, a autonomia e a segurança da mulher.


O que RHs e lideranças podem fazer


Uma atuação responsável começa pela informação. Comunicações internas sobre as formas de violência, divulgação de canais oficiais de atendimento, políticas claras contra assédio e violência e capacitação de lideranças podem ajudar a criar um ambiente no qual o tema possa ser tratado com seriedade e respeito.


O acolhimento também exige preparo. Uma colaboradora que compartilha uma situação de violência precisa encontrar escuta responsável, confidencialidade e orientação adequada, e não julgamentos ou tentativas improvisadas de intervenção. Por isso, estabelecer previamente fluxos internos e conhecer os serviços especializados disponíveis pode fazer diferença quando uma situação concreta surgir.


Há ainda um componente cultural importante. Empresas que trabalham continuamente respeito, equidade, segurança psicológica e relações profissionais saudáveis contribuem para combater comportamentos que normalizam diferentes formas de violência. Nesse sentido, o Agosto Lilás pode iniciar conversas importantes, mas a responsabilidade organizacional não deve terminar quando agosto acaba.


Saúde integral também significa reconhecer vulnerabilidades


Para organizações que trabalham com saúde corporativa, compreender a pessoa de maneira integral significa reconhecer que condições sociais e experiências vividas fora do trabalho também podem afetar seu bem-estar. Saúde física, emocional e social estão profundamente conectadas, e situações de violência representam um exemplo particularmente grave dessa relação.


Essa perspectiva amplia o papel das estratégias corporativas de saúde. Além de oferecer acesso a serviços, programas e benefícios, empresas podem criar ambientes que facilitem o acesso à informação e ao cuidado quando seus colaboradores atravessam momentos de vulnerabilidade.


É justamente nesse ponto que uma visão integrada de saúde ganha relevância: diferentes necessidades exigem diferentes formas de suporte, e cuidar de pessoas pressupõe compreender que saúde não começa apenas quando surge uma doença.


Agosto Lilás: conscientização que precisa gerar transformação


O Agosto Lilás oferece às empresas uma oportunidade para promover informação e refletir sobre como suas próprias culturas, políticas e práticas podem contribuir para ambientes mais seguros. Entretanto, transformar a campanha em uma iniciativa efetiva exige ultrapassar ações meramente simbólicas.


Diante de dados que continuam demonstrando a dimensão da violência contra as mulheres no Brasil, organizações têm a oportunidade de utilizar sua capacidade de comunicação e mobilização para fortalecer uma cultura de respeito e conscientização. Para RHs e gestores, isso significa compreender que acolhimento, informação e saúde integral também fazem parte de uma gestão responsável de pessoas.


Enfrentar a violência contra a mulher é uma responsabilidade de toda a sociedade. Quando empresas assumem seu papel nessa rede, ajudam a construir ambientes nos quais respeito, segurança e cuidado deixam de ser apenas valores declarados e passam a fazer parte das relações cotidianas.


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